O rompimento da barragem de rejeitos da Samarco em
novembro de 2015 - que destruiu o distrito mineiro de Bento Rodrigues - é o
maior desastre do gênero da história mundial nos últimos 100 anos.
Se for considerado o volume de rejeitos
despejados - 50 a 60 milhões de metros cúbicos (m³) - o acidente em Mariana (MG) equivale, praticamente, à soma dos outros dois maiores
acontecimentos do tipo já registrados no mundo - ambos nas Filipinas, um em
1982, com 28 milhões de m³; e outro em 1992, com 32,2 milhões de m³ de lama.
Os dados estão presentes em estudo da Bowker
Associates - consultoria de gestão de riscos relativos à construção
pesada, nos Estados Unidos - em parceria com o geofisico David Chambers.
Apenas cinco acidentes com barragens de
rejeitos excederam 10 milhões de m³ de lançamentos, até hoje, em todo o mundo.
Mas não é apenas nessa métrica (volume de
rejeitos) que a tragédia mineira sai negativamente na frente. Em termos de
distância percorrida pelos rejeitos de mineração, a lama vazada da Samarco
quebra outro recorde. São 600 quilômetros (km) de trajeto seguidos pelo
material, até o momento. No histórico deste tipo de acidente, em segundo lugar
aparece um registro ocorrido na Bolívia, em 1996, com metade da distância do
trajeto da lama, 300 quilômetros.
O ineditismo numérico continua em um terceiro
quesito: o custo. O investimento necessário para reposição das perdas
ocasionadas pelo desastre, no caso brasileiro, está orçado pela consultoria
norte-americana em US$ 5,2 bilhões até o momento. O maior valor contabilizado
com a mesma finalidade, após os anos 1990, foi de um acidente com perdas
próximas a R$ 1 bilhão, na China. "Essas avaliações não levam em
consideração a 'limpeza' das áreas afetadas, nem a 'correção' de danos diversos
os quais os reparos podem não ser economicamente viáveis ou tecnicamente realizáveis",
acrescenta o estudo da consultoria norte-americana.
"Embora os números exatos permaneçam um
pouco distorcidos, a diferença de magnitude em relação a catástrofes
passadas torna inequivocamente claro que o caso da Samarco é o pior registrado
na história sobre essas três medidas de gravidade", pontua Lindsay Newland
Bowker, coordenadora da Bowker Associates. O estudo registra, de 1915 a
2015, um total de 129 eventos com barragens - de 269 conhecidos - e
projeta, em média, um acidente grave por ano no período de uma década.
Até 2015, foram registrados 70 eventos
"muito graves" com barragens em todo o mundo. A classificação leva em
conta o fato de esses acidentes terem ocasionado o vazamento de, no mínimo, 1
milhão de metros cúbicos de rejeitos, cada. De acordo com a pesquisa,
enquanto na década que se encerra em 1965 havia sido contabilizado 6
milhões de m³ vazados em desabamentos de barragens, na década que termina em
2015, esse número saltou para 107 milhões de m³.
O estudo prevê que a década que se
encerrará em 2025 registre 123 milhões de m³ de vazamentos de barragens de
rejeitos. Em termos de quilometragem, também é registrada a tendência de
crescimento. Na primeira década pesquisada, eram 126,7 quilômetros tomados
por lama de rejeitos. Na última década, foram 722,2 quilômetros totais, já
incluindo a falha da Samarco. A expectativa para os dez anos que se encerram em
2025 é de 723,5 km.
"Todas as catástrofes na mineração
são ocasionadas por erro humano e falhas ao não se seguir as melhores
práticas estabelecidas, o melhor conhecimento, a melhor ciência", pondera
Lindsay.
A consultora complementa
que os acidentes são, também, "falhas dos parceiros
públicos"."Uma das preocupações é que o Brasil permite a utilização
de barragens à montante, o método menos estável de construção, com
barragens grandes. Trata-se de um desvio aos conhecimentos e práticas
globalmente aceitas", explica. "No caso específico da Samarco, essa
instabilidade inerente foi exacerbada por uma taxa de deposição de rejeitos e
uma taxa de aumento na barragem muito superiores aos melhores padrões
globais", complementa Lindsay.
O estudo lembra, ainda, outro acidente ocorrido
com barragens no Brasil, em setembro de 2014, em Itabirito, também no
estado de Minas Gerais. A Herculano Mineração é a responsável pela obra.
Na ocasião, dois trabalhadores morreram e um desapareceu.
"As falhas da Samarco e da Herculano são
apenas os dois exemplos mais recentes de um Estado que tem falhado na
política nacional de mineração. Nenhuma ação foi tomada pelo governo
em nível estadual ou federal para a identificar quais foram os problemas e
evitar a sua manifestação com novas falhas repentinas", conclui Lindsay.
Esta semana, o subsecretário de
Regularização Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais, Geraldo
Vítor de Abreu, em depoimento à comissão da Assembleia Legislativa do
Estado que investiga o desastre da barragem de Mariana, afirmou
que Minas Gerais quer proibir o sistema de alteamento de barragens à
montante na unidade da Federação. Procurada pelo Portal EBC, a empresa Samarco
não se manifestou, até o momento, sobre os dados apresentados pelo estudo
da Bowker Associates.
Fonte
exame.

Nenhum comentário:
Postar um comentário